Terra ao mar no Porto da Cruz

Uma gigantesca descarga de terras para o mar. A segunda em cerca de um mês na Região, depois do mesmo ter sucedido em São Vicente, com autorização da Câmara de São Vicente e da Secretaria do Equipamento Social. Desta vez, várias dezenas de toneladas de terra que tinham sido despejadas na frente mar do Porto da Cruz, entre o centro desta freguesia e o sítio do Maiata – no local onde está prevista a construção de uma promenade pela secretaria do Equipamento Social – foram ‘empurradas’ ontem de manhã por uma escavadora da AFA – informação confirmada pelo vereador António Zeferino – para o mar do Porto da Cruz.
Uma operação que se iniciou bem cedo e terminou por volta das 13horas. Como consequência desta acção, o mar desta freguesia do concelho de Machico apresentou durante todo o dia uma enorme mancha castanha. Nas reacções recolhidas, os governantes colocam-se em ‘pé de guerra’ contra os ambientalistas.
As terras que foram enviadas para o mar tinham sido despejadas nesta frente mar após o temporal da noite de terça-feira 2 de Fevereiro que encerrou várias estradas e deixou a pacata freguesia do Porto da Cruz irreconhecível. As terras e entulhos são provenientes das derrocadas e das enxurradas desse dia. De resto, apesar do centro já se encontrar totalmente limpo, boa parte das estradas dos sítios mais altos da freguesia do Porto da Cruz ainda se encontram por limpar.
Perante um cenário de catástrofe, a Câmara Municipal de Machico optou por contratar os serviços da construtora AFA para a limpeza do centro da freguesia, uma informação confirmada ao DIÁRIO pelo adjunto de Emanuel Gomes, António Nóbrega.
Melhor o mar que a serra
Manuel Spínola, presidente da Junta de Freguesia do Porto da Cruz, questionado sobre o assunto, primeiro informou que a Câmara Municipal de Machico tinha conhecimento do despejo e depois fez uma declaração curiosa. “É melhor despejar estas terras para o mar do que para a serra. Tudo o que vai para a serra vai acabar por vir bater ao mar e isso coloca em causa a vida de pessoas e bens. Havia que limpar as derrocadas o mais rápido possível porque haviam populações isoladas”.
Sempre a minimizar o impacto dos despejos para o mar, Manuel Spínola acusa os ambientalistas de não entenderem a situação e reforça. “Os ambientalistas criticam que se despeje terras para o mar, mas não comentam a quantidade de terra que as ribeiras trazem nos dias dos temporais. Parece que essa terra já não tem tanto impacto para o mar”. E conclui. “O mar leva a terra e renova, ao contrário do que dizem alguns ambientalistas”. Contactado durante a tarde de ontem, o presidente da Câmara de Machico e o vereador do ambiente revelaram desconhecimento desta situação, ao contrário do que disse Manuel Spínola. Emanuel Gomes também fez uma declaração curiosa. “Qual é o mal de deitar essas terras para o mar?!”, desabafou.
Já o vereador do Ambiente desta autarquia, António Zeferino, mostrou-se surpreendido com o despejos de terra e explicou que aquele local tinha sido escolhido para deitar as terras que depois seriam aplanadas por todo o local. “Tenho de ver o que se passa. Desconheço essa situação, mas garanto que ninguém deu ordem para mandar as terras para o mar. Em circunstância alguma. O maquinista que lá esteve deve estar louco”.
Sem cultura ambientalista
Opinião diferente de Emanuel Gomes e Manuel Spínola tem Idalina Perestrelo, da associação ambientalista QUERCUS. Para a ambientalista, as respostas dos governantes demonstra que estes são pessoas sem cultura. “Tenho visto muitas conversas e declarações de governantes que demonstram que não estão minimamente preocupados com o ambiente ou para população. Isso é uma resposta de quem não tem conhecimento de causa, nem cultura. De quem goza com a vida, com a sociedade e o ambiente”.
Mais. Idalina Perestrelo lembra que a Região tem vários aterros seguros onde esta terra poderia ser depositada. “Só não se coloca as terras nos lugares devidos porque não se quer. As entidades preferem seguir caminhos mais fáceis e isso não se entende”.
O gigantesco despejo de terras realizado na manhã de ontem traz vários problemas. “Causa problemas ao nível do impacto visual, leva à destruição da biodiversidade daquela zona da costa e destrói os recursos pesqueiros que ali existem”.
Antes de finalizar, Idalina Perestrelo lembra que tanto a Direcção Regional de Ambiente como a GNR, têm competência para actuar. “O problema é que essas situações vão sendo desculpadas, sempre com o argumento de resolver os problemas”, afirma.
Marco Freitas
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