Primeiro-ministro já combinou com Jardim a deslocação a festa da Flor em Abril

José Sócrates garantiu ontem ao DIÁRIO que vem à Madeira a meados de Abril constatar ‘in loco’ o trabalho de recuperação das zonas mais afectadas pela tragédia de 20 de Fevereiro. “Vou à Festa da Flor. Já combinei com o senhor presidente do Governo. Espero que nessa altura esteja tudo bem melhor”, referiu ao nosso jornal à chegada a Lisboa, depois da viagem de 11 horas que ligou a capital moçambicana à portuguesa.
A deslocação à Região e ao evento que decorre entre 15 e 18 de Abril – já anunciado pelo executivo de Jardim com “o grande momento e a grande festa da celebração da vida e da recuperação do povo madeirense” -deve ter ficado acertada na passada segunda-feira, aquando da reunião entre governos em São Bento, durante a qual se consolidou a pacificação das relações institucionais, já que depois desse encontro onde a gratidão da Região e o dever da República foram sublinhados, o primeiro-ministro ocupou-se da agenda internacional e da diplomacia política e económica patenteada na deslocação a Moçambique.
Escola de referência
Outras confidências marcaram o último dia da visita de José Sócrates a Moçambique. Mesmo antes de inaugurar oito salas de ensino pré-escolar na Escola Portuguesa de Moçambique, que já funcionam desde Janeiro, o primeiro-ministro já partilhava o que lhe ia na alma no já tradicional ‘jogging’ matinal nas cidades que o acolhem em deslocações oficiais. Saiu do hotel Avenida, situado perto da Embaixada Portuguesa, rodou em ritmo lento até à marginal e regressou à base. Pelo meio, saudações ao povo irmão porque em tempo de cooperação de “patamar elevado” a simpatia faz a diferença.
Depois, bem disposto, cruza-se com as crianças na escola que o enche de “orgulho”. Está focada no “sucesso” e assume-se como “instituição empreendedora e dinâmica”. Sócrates enaltece o trabalho que a torna “referência”. Por divulgar a língua e cultura portuguesas mas também por transmitir “alegria contagiante”. Uma alegria que embala a união entre os povos. Muitos dos 1400 alunos das 58 turmas cantaram afinados que numa escola com gente de 26 nacionalidades há um lema: “todos diferentes, todos iguais”.
O primeiro-ministro não fez coro. Apenas por uma razão: “Quando vim para a política prometi duas coisas: não dançar, nem cantar”. Preferiu plantar uma árvore, uma ‘tivessa’ que, por ironia, não dá flores, nem frutos. “Só sombra”, garante uma professora.
“Tenham piedade”
No balanço à visita de três dias a Moçambique “democrático e com eleições justas” referiu que foram cumpridos todos os objectivos. Coerente com o que disse desde a primeira hora, repetição que não agrada a jornalistas mas chega ao povo, salientou que “a visita deu um novo impulso e uma nova ambição à relações entre Portugal e Moçambique”. “No domínio político saliento a importância histórica termos decidido fazer uma cimeira anual. No desenvolvimento das parcerias económicas saímos daqui com a consciência plena do que há para fazer e com meios que reforçam o investimento das empresas portuguesas neste País”, desabafa.
Preocupado com a internacionalização da economia lusa, com a melhoria do posicionamento de Portugal no mundo e com necessidade de “honrar a história”, o chefe do Governo assegura que não teve tempo para pensar na política nacional. Não admira que quando questionado sobre as acusações que lhe foram feitas por Manuela Moura Guedes na Comissão de Ética tenha soltado mais uma confidência: “Tenham piedade. Não é aqui que vou comentar esse episódio lamentável”. E mais não disse ante um povo grato pela companhia e que se despediu com grande festa no aeroporto.
Madeira recordada
O chefe do Governo português não foi ao mercado de Maputo. Não se cruzou com o enxame, o bando de vendedores de rua que de forma persistente e agressiva tentam despachar artesanato, canetas de marca e relógios sem ponteiros. Vendedores bem informados. Quando lhes digo que sou da Madeira perguntam como ficaram os que sobreviveram à tragédia. Falam ainda de Cristiano Ronaldo. Mas o que querem é despachar mercadoria. “Estamos à rasca amigo”, segredam.
Sócrates também não passou por hospitais. Por exemplo o das ‘Irmãs’ e outros onde têm aparecido voluntários e missionários da Madeira. Não deu para tudo. A agenda foi apertada e com algumas falhas. No primeiro dia a comitiva foi por três vezes ao palácio presidencial! Moçambique tem enorme potencial energético mas ontem, em algumas zonas de Maputo, faltou luz. Dizem-nos ser frequente. Falta melhorar o sistema de distribuição eléctrico entre o norte e o sul do País. Portugal já se comprometeu a ajudar. Será que os acordos sobre energia – e foram 10 – também não vão falhar?
Ricardo Miguel Oliveira, em Lisboa
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