Não há memória de um temporal igual

No Porto da Cruz (concelho de Machico) e no Lombo Galego (Santana) o povo é unânime em dizer que não há memória de um temporal igual ao que se viveu na noite de 1 para 2 de Fevereiro último. Em segundos, tudo ficou virado do avesso, entre entulho, pedras e lama, tudo arrastado pelo grande caudal de água.
«Imagine o que não veio por aí abaixo», afirma-nos Jaime de Encarnação, proprietário de uma das residências afectadas na vila do Porto da Cruz. A sua casa, de dois andares, está mesmo à entrada da estrada que dá acesso ao engenho. A ribeira transbordou, a água rebentou com o braço do portão e deixou a cave a dois metros de profundidade.
«Penso que eram umas quatro horas da manhã. Fui à casa de banho e vi que isto estava tudo encharcado. Então, desci – descalço e de pijama – por uma escadaria e apercebi-me que o quintal estava cheio de água. Apanhei um cagaço», contou-nos, enquanto apontava para meio corpo para nos mostrar por onde dava a água.
«Sabia que tinha uma porta de acesso à ribeira e abriu-a para ajudar a escorrer a água. Quase que era levado. Agarrei-me com unhas e dentes», prosseguiu. Na garagem, de onde a mulher e outros dois amigos retiram grandes quantidades de lama, o prejuízo é total, entre arcas frigoríficas, fogão e outro material. O carro da mulher ficou submerso e atravessado.
«Antigamente lembro-me que quando havia estas cheias, a água corria por aí abaixo, mas nada assim», diz, enquanto planeia novas obras no quintal. «Vou fazer uma coisa em condições. Não estou para brincadeiras».
«Veio tudo por aí abaixo»
Na Banda da Lagoa, Casas Próximas, deparamo-nos com duas viaturas à beira da estrada. Ambas foram arrastadas pela água, explicam-nos. De uma delas, o proprietário vai retirando grandes quantidades de entulho do motor, na esperança de que ainda possa funcionar.
«Entupiu um aqueduto à banda de cima e arrastou tudo por aí abaixo. Andou uns bons 100 metros», contou. Ao lado, está uma meia carrinha, também ela arrastada. «Uns bons 500 metros», arrematou.
«Já vi chuva bastante por aqui abaixo, a ponto de não podermos atravessar a estrada. Mas, como esta, nunca vi», explicou.
Ao lado, Arnaldo Freitas, a esposa e alguns amigos tentam limpar a casa, depois de esta ter sido invadida por lama. «Ninguém faz ideia do que isto foi», afirma, enquanto nos faz uma visita pelos quartos afectados. «A marcação da água está aqui – aponta para meia parede – Não fui eu que pintei».
Salientou que chegou a temer pela vida, quando viu-se forçado a rebentar uma porta nas traseiras, para fazer escorrer a água para a estrada. «A força foi tanta que fui arrastado. Agarrei-me à varanda», continuou. Ainda assim, Arnaldo Freitas gaba-se da sorte que teve. É que, mesmo ao lado da sua e da casa do irmão, a água atalhou caminho, e grande parte foi desviada. «Foi algum anjo que abriu aquilo. Já vi chuva, mas nunca vi isto na minha vida. Pensei que era só em filmes», concluiu.
Água com uns 5 metros de altura
Olívia Nóbrega Ornelas, mais conhecida no sítio dos Casais Próximos por Lídia, também não encontra palavras para aquilo que viveu. «Estava num dos quartos quando senti a casa estremecer, por volta das quatro da manhã. Vim à porta, mas fui outra vez para dentro. Deitei-me e começou outra vez a estremecer tudo. Quando vim à rua, a água devia ter uns cinco metros de altura», recorda.
A varanda à frente da casa foi levada pela força da água. Quando tentou fugir, já a lama lhe entrava em casa por todos os lados. Ficou na porta a gritar por ajuda. Valeram-lhe dois vizinhos. «Antes Nosso Senhor me levasse do que ver tudo o que tinha assim», lamenta.
Um pouco mais acima, encontramos António Rocha e Maria Isabel Nóbrega. Estão desolados. A força da água levou perto de três dos seis mil metros de terreno que possuem. Grandes extensões de bananeiras, cana-de-açúcar e vinha foram arrasadas. «Ficamos sem vontade para trabalhar quando se vê isto», lamentam, enquanto esperam por alguém do Governo, que os possa ajudar.
Electrodomésticos e mobília para o lixo
No concelho de Santana, o Lombo Galego foi um dos pontos mais atingidos desta intempérie. Joaquim Caldeira e família, ajudados pelos bombeiros locais, lavam a casa, depois de esta ter sido invadida por lama e entulho.
«Isto começou às quatro horas da manhã. Meia hora mais tarde é que veio uma “rabecada” valente e já não pude valer. Isto encheu de pedras desta altura», diz, enquanto aponta para o tecto de um armazém localizado do outro lado da estrada, em frente à casa. «Uma delas teve de ser partida em dois para poder transportar», acentuou.
Da parte de baixo da casa tirou «dois camiões de material para o lixo», afirmou. «Entrei a nadar com uma enxada na mão e parti os vidros, para que a água começasse a sair. Tive medo que a força do entulho me derrubasse a casa», prosseguiu.
Frigoríficos, congelador, máquinas de lavar e fogões, foi tudo para o lixo. «Perdi tudo. Na parte de cima, é que entrou pouca coisa». Neste andar, uma carrinha também ficou submersa e foi retirada pelos bombeiros. «Não sei ainda se ela vai trabalhar».
«No primeiro tombo pensei que ia morrer»
Foi na Estrada Municipal das Paredes que o JM encontrou o testemunho mais impressionante, relacionado com esta intempérie. É contada por Manuel Gouveia de Freitas, de 63 anos que bem se pode gabar de ter “fintado a morte”.
Tudo aconteceu por volta das quatro da manhã. Saiu de casa e dirigiu-se para a sua carrinha, uma Peugeot Boxer, na qual investiu pouco mais de 20 mil euros para distribuir verdura. «Mal fechei a porta do carro, comecei a sentir o impacto das pedras. Depois, só me lembro de tombar para dentro da ribeira», disse.
«Ainda deu um tombo mais abaixo. Depois, o carro foi sacudindo de um lado para o outro. Ao chegar ao caminho, pelo menos dois tombos sei que dei e fui parar lá abaixo, de arrastões», prosseguiu o relato, ainda que visivelmente atordoado pelo sucedido.
«Quando cheguei à parte de baixo da estrada, dei uns pontapés na porta do lado direito, mas não consegui abrir. Depois fui pelo lado esquerdo e vi a sombra de uma pessoa à minha frente. Acenei e ela veio. Disse-lhe para me trazer uma corda e o rapaz então trouxe», contou. Entre essas pessoas contava-se Arnaldo Freitas e o irmão, que tudo fizeram para salvar o homem da fúria da água. «Ele andou uns bons 300 a 400 metros dentro da ribeira. Atiramos uma corda, ele amarrou-se e começamos a puxar. Quando ele saiu, se a corda não estava amarrada a um pilar, ele ia por aí abaixo», disseram-nos. «Ainda caí duas vezes. Tremia das pernas que não me aguentava», arrematou Manuel Freitas.
«No primeiro tombo, pensei que ia morrer. Quando saí do carro, não sabia onde estava. Perguntei a uma rapariga “onde estou?” e ela disse que estava no Porto da Cruz. Olhei acolá para baixo e vejo a igreja. Não sei como ainda estou vivo», confessou. «Já fui ao Hospital, tirei uma radiografia e não tenho nada. Estou é todo moído».
Entretanto, um dos filhos de Manuel Freitas explica que em tempos chegou a pedir à Junta para que procedesse a limpezas naquele ribeiro.
25 máquinas estiveram em trabalhos de limpeza
Rui Moisés não vai esquecer, tão cedo, os seus primeiros 90 dias de presidência, depois dos prejuízos que o concelho contabilizou em Dezembro e neste início de Fevereiro.
As freguesias da Ilha, Arco de São Jorge, Faial e parte superior de São Roque do Faial foram as freguesias mais atingidas. «Foi brutal, pelo volume de intervenções e daquilo que representa em custos», disse-nos o autarca no Lombo Galego, onde foi espreitar os estragos que ali se verificaram.
Ontem, foram 25 as máquinas que se deslocaram para o terreno – fornecidas por empresas particulares de e fora do concelho – para repor a normalidade «Estamos numa altura em que é preciso que a normalidade impere no concelho e as pessoas retomem os seus trabalhos. Estamos a inventariar e a fazer com que as pessoas compreendam que há prioridades», explicou, visivelmente transtornado com o que foi vendo ao longo do dia.
«Temos graves prejuízos em estradas, taludes, casas, garagens, carros. Não há memória de um prejuízo tão grande no município, dizem os mais antigos. Há mais de 40 anos que não acontecia algo com esta intensidade», frisa Rui Moisés. «Todo o nosso pessoal está a intervir junto de famílias cujas casas estão atoladas. Estamos a falar de seis a sete casas em que vamos ajudar, mas de forma faseada. É extenuante este trabalho. Há muitas coisas que ainda não conseguimos repor e basta olhar e vermos que há ribeiros por todo o sítio e que não existiam e as águas tomaram conta», salientou.
Ao longo da noite de terça para quarta e mesmo ao longo do dia de ontem, várias derrocadas foram sendo registadas e complicando a situação. «São tantas as derrocadas que houve na montanha, fora do normal, que não se consegue chegar a muitos locais. Estamos a fazer o possível e o impossível para repor o abastecimento de água. Pedimos, por isso, a compreensão das pessoas, que reduzam o consumo de água ao que é estritamente necessário».
Celso Gomes

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