Porto da Cruz sem soluções para mar !
A história repete-se todos os anos e o Verão de 2009 não é excepção. Sempre que o Engenho do Porto da Cruz inicia a produção de aguardente, começam também as descargas das águas residuais desta indústria para a praia da Alagoa.
Esta é uma situação que se arrasta desde que o engenho labora e parece contar com a pouca vontade das entidades responsáveis em solucionar o problema, limitando-se a notificar o proprietário do Engenho, Luís Clode, a alterar a situação.
Ainda no ano passado, este mesmo matutino noticiava as palavras do vereador com o pelouro do saneamento básico da autarquia machiquense, António Zeferino, que garantia que este era o último ano que o esgoto era despejado directamente para o mar. Mas não foi.
Um dos problemas é que a actividade do engenho coincide com a época balnear e isso acaba por ser afectar a imagem do Porto da Cruz, tanto como cartaz turístico, mas como destino de praia. Ontem, durante a manhã, o despejo directo de águas residuais para o mar, lançava um odor forte e uma cor amarelada nas águas da costa.
Durante a reportagem do DIÁRIO, apenas seis pessoas se encontravam nesta praia: dois casais alemães (alarmados com esta situação, optaram por não ir à água) e duas banhistas naturais desta freguesia. Optando pelo anonimato, estas disseram ter feito praia no sítio oposto ao das descargas, porque aí “o mar aí se encontrava mais limpo”. No entanto, no início da tarde, as únicas banhistas abandoanaram a Praia da Alagoa, desapontadas com as descargas.
Na mesma manhã, uma guia de um autocarro de turismo abortou a escala que previa fazer duas horas de praia, mas a cor do mar fizeram-na mudar de ideias. O autocarro seguiu viagem com destino ao Faial.
Hoteleiros descontentes
José Pestana, proprietário de uma das unidades hoteleiras da freguesia, a Albergaria do Penedo, assume sem rodeios que quer o fim desta situação. “É evidente que qualquer despejo, seja ele de que natureza for, questiona a qualidade das águas do mar, seja no Porto da Cruz ou noutro lado qualquer. Nem falo como interessado de uma albergaria mas como madeirense. Um dos nossos potenciais é o mar e devemos preservar esse bem o melhor possível”. PH elevado reduz oxigénio do mar.
Na Direcção Regional de Ambiente (DRA), Manuel Ara tem a noção do perigo que representa o lançamento das águas do Engenho para a vida marinha. Observa que “o PH elevado, reduz o oxigénio daquelas águas”, facto que pode ter impactos na vida dos seres orgânicos que ali habitam.
O inspector informou que os serviços do Ambiente têm conhecimento destas descargas, mas isso não originou qualquer coima ao proprietário do engenho. Manuel Ara explicou que a resolução deste problema depende do proprietário e da Câmara Municipal de Machico. O primeiro “construiria um poço que permitisse o arrefecimento das águas”, O segundo criaria as condições de acesso à rede de esgotos.
Actividade industrial “merece o apoio” da Junta e da Câmara
O presidente da Junta de Freguesia do Porto da Cruz, Manuel Spínola, é um acérrimo defensor da manutenção da actividade e desvaloriza os despejos. Lembrou que as últimas análises ali efectuadas foram positivas, “sinal que as coisas não estão tão más”. “O mar ali também mexe bastante e isso ajuda a limpar a sujidade”, disse. Com isto, Manuel Spínola envia um recado às vozes críticas: “Unam esforços e tentem ajudar a encontrar uma solução para esta situação, em vez de criticar por criticar”, assumindo que é uma pena que a praia esteja assim… “conspurcada”.
Já o presidente da Câmara Municipal de Machico, adiantou ter abordado o empresário para este resolver a situação e adiantou já ter comunicado à DRA para actuar em conformidade. Emanuel Gomes afirmou ainda que esta é uma actividade “antiga e tradicional que merece o apoio” da Câmara. Ainda assim, gostava de ver o assunto resolvido, “porque há exigências ambientais que têm de ser cumpridas”. O DIÁRIO tentou ainda contactar o empresário, mas sem êxito.
Marco Freitas
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